O telefone toca na sala de Gislene, em maio de 2010. Era a recepcionista:
- Saiu uma mãe aqui para fumar, mas eu vi ela se dirigindo para o lado do Parque da Jaqueira, acompanhada de um rapaz.
- Mande o porteiro ir, imediatamente, atrás dela, porque ela não tem autorização de sair. – falou isso quase gritando, devido ao susto que tinha levado.
O porteiro foi atrás, mas sem sucesso. Quando retornou ao Nacc, Gislene já estava na recepção e recebeu a notícias que ele não tinha a encontrado. Foi até o Parque da Jaqueira e nada. Para uma mãe sair da instituição para fumar, é preciso mostrar uma requisição na recepção, preenchida pelo serviço social. Isso passou a ser regra no Núcleo desde quando um doador viu uma mãe com o filho nos braços, no subsolo, fumando. Antigamente, era lá o fumódromo. Ele era um contribuinte assíduo da entidade e se queixou da situação diretamente para diretoria.
A mãe fugitiva foi questionada na recepção pela requisição. Procurou o papel nos bolsos e disse que tinha perdido. Como a recepcionista sabia que ela era fumante, liberou. E deu no que deu. Não restava fazer mais nada, só esperar. E todos esperaram 40 minutos. Antes disso, a filha da fumante foi lá na sala do serviço social perguntar pela mãe. Recebeu a resposta que ela tinha ido fumar e já estava voltando. Quando chegou novamente no Nacc, direto para sala de Gislene:
- Mãe, pelo amor de Deus. Faz 40 minutos que você saiu do Nacc dizendo que ia fumar. Você estava aonde? – Gislene estava preocupada e o tom de voz era firme.
- Eu fui comprar cigarro, mas...
- E o rapaz que estava com você? – interrompendo.
- Era um amigo.
- Amigo de onde?
- Do IMIP. – se sentindo acuada.
- Funcionário?
- Sim. Ele trabalha na lavanderia do IMIP.
- Eu vou cevar o seu caso para o IMIP e saiba que, a partir de hoje, ele nunca mais coloca os pés aqui no Nacc.
O caso foi levado ao hospital, através de um relatório de ocorrência, porque ela tinha infringido uma norma. Uma vez no Nacc, a responsabilidade de qualquer coisa que aconteça passa a ser da instituição. A mãe levou uma bronca daquelas, mas em consenso, as assistentes sociais preferiam deixar que ela continuasse acompanhando a filha, pois a garota estava muito debilitada.
Depois que foi criada a requisição para as fumantes, houve um decréscimo perceptível na quantidade de cigarros fumados por dia. É o lado positivo. Muitas acabam desistindo de fumar só em pensar em ter que solicitar o requerimento, esperar o preenchimento, subir para o quarto para deixar a bata, pedir para alguma mãe ficar com o filho enquanto ela fuma e por aí vai. Sem contar que muitas têm medo de ir para rua porque não conhecem nada, afinal são do interior. Muitas mães solicitam idas ao supermercado para comprar objetos pessoais ou outras necessidades que não possuem no Nacc. Como era de se esperar, foi criada outra requisição. A permissão vale apenas para um supermercado – que fica quase de esquina com a instituição e não é dada por qualquer razão, muitas são barradas.
- Gislene, preciso ir ao supermercado.
- Comprar o que, mãe?
- Shampoo.
- Shampoo? Tem shampoo no Nacc. Não vai!
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